História de Lisboa - Segunda Parte

Assim, os cristãos transformaram a mesquita na Catedral da Sé e recluíram os seus antigos moradores na Mouraria. Aproveitaram o seu foral e a sua boa sorte para jogar, com as primeiras caravelas, à deambulação entre o Mar do Norte e o Mediterrâneo. A nova capital do novo Portugal, que chegava já até os Algarves, reclamou para si ao mar o Terreiro do Paço e escolheu o Rossio como o seu centro. A cidade brotava da sua velha semente enquanto, no longiquo calor das profundidades do seu océano fecundo, a mente perversa do que é inevitável preparava a primeira mostra da sua força inabalável.

A Lisboa do héroi medieval acordou entre as ruínas da Sé e da Alcaçoba, faminta e doente. Pelas novas e estreitas ruas escuras corriam os conflitos entre os altivos nobres do norte -netos da Castela- e os famigerados comerciantes impúdicos -filhos da especulação-; que mexiam, ainda com mais frequência que os terramotos, com a clama nos lares.

Contudo, a obrigação histórica de falar daquilo que a fez avançar, traz-nos os nomes dos semideuses que veremos adiante. Esses que aproveitaram com coragem o ar do Renascimento a bater nas suas velas para importar das ilhas e portos exóticos uma nova idade de luz à vila. O infante dom Enriques, Fernão Gomes, Álvares Cabral, Vasco da Gama... transformaram indiretamente Lisboa numa cidade opulenta, cheia de extravagantes desfiles sobre a recém-inventada e luxuosa calçada portuguesa. Foram então construídos belos edifícios que lembravam as imagens de além-mar como a Torre de Belém ou o Mostério dos Jerońimos. Apareceu o Bairro Alto no topo de uma colina, enquanto que, na ladeira de outra, se inaugurou a chamada Feira da Ladra, onde ainda podem comprar algumas das célebres obras que então foram escritas.