História de Lisboa - Terceira Parte

Ora, assim como os bons romances precisaram de drama, a história desta cidade careceria uma tragédia. Desta vez, a peste e os terramotos vieram em companhia da negrura da lenda preta espanhola que invadiu -em sentido, às vezes literal e, outras, figurado- a vila. Agora os nobres do norte caminhabam tranquilos pelas ruas onde os coloridos desfiles foram substituídos pelos autos de fé.

No entanto, mais cedo que tarde, chegaria de novo a independencia de Portugal, empurrada pelos comerciantes que seguiam, como os reis magos a sua estrela, o brilho do ouro que traziam os barcos desde o Novo Mundo e que afastaria momentaneamente a escuridão. Foram construídos o Panteão Nacional e o Aqueduto, que levara as suas Àguas Livres até cada beco de Lisboa. A cidade, cheia de cicatrizes, era nesta altura descrita pela primeira vez como suja e degradada.

Bate de novo a tragédia! Eis o grande terramoto de Lisboa, a borracha que apagou -não sem dor- a lapiseira e deixou ao famoso Marquês desenhar, agora com tinta permanente, as ruas da Baixa e o Passeio Público, que apanharam para sempre a claridade do Iluminismo. Apesar disso, a continuação das obras pombalinas cessou e fortes câmbios políticos pediram então a atenção da capital. A invasão francesa, a invasão do Brasil, as lutas entre os liberais e os absolutistas, só deixaram -a petição da rainha Maria I- a Basílica da Estrela.

Por fim, perante todas as dificuldades, chegamos à Lisboa saudosa sobre a que Amália canta orgulhosa. Aquela linda senhora das touradas, os teatros e os fados que Fontes Pereira de Mélo ordenou vestir de azulejo e cor-de-rosa, aquela por cujas veias já transitavam os elétricos e os elevadores. Apareceram as estações de comboio em Santa Apolónia e no Rossio, a magnífica Avenida da Liberdade e a sua Praça do Marquês de Pombal. Também foram criados os grandes jardins públicos, como o Jardim da Estrela, e a praça de touros em Campo Pequeno. Enquanto, Chiado for a escolha dos locais mais luxuosos.

Neste ponto, à mente do leitor perspicaz vem a inevitável pergunta: "Que foi, então, o que nos separou desta vila de charme e autenticidade?". A resposta, se calhar, é também conhecida pelo mesmo leitor perspicaz. A Revolução Industrial, a indignação dos explodados obreiros e o clima de crispação na sociedade europeia dessa altura levaram logo a ditadura, que deixou pouco mais do que a ponte que, agora, é denominada segundo o dia em que acabou o regime que a construiu.

E foi assim como chegamos até a atualidade, só merecendo salientar a construção dos edifícios de Oriente, com motivo da Exposição Universal do ano de 1998, até aos quais é possível chegar quer de comboio, descendo na estação de Calatrava, quer de carro, atravessando a imponente ponte Vasco da Gama.

Como é lógico de prender após a leitura destes parágrafos, a sorte de Lisboa lembra-nos o movimento de um pêndulo, que oscila incansável entre a negrura da tragédia e a brancura da reconstrução. Hoje, a cidade abre as suas portas à imigração, ao ecologismo e à diversidade, num periodo em que, se bem que não é branco, está mesmo cheio de cores. Será que ainda nos temos de preparar para a nova invasão da escuridão? Tal vez esta mudança na sua atitude já tenha acabado com a maldição.